Entrevista com Dr. Ronaldo Hirata
Revista Dental Press Estética, Maringá, v.2, n.2, p. 16-20, abr./maio/jun. 2005

Sensibilidade. Talvez seja a palavra que melhor resuma o perfil profissional de nosso entrevistado, Dr. Ronaldo Hirata, professor do curso de especialização em Dentística Restauradora da UFPR, professor do curso de pós-graduação Latu Sensu em Odontologia Estética do CES/SENAC-SP, mestre em Materiais Dentários pela PUC-RS e doutorando em
Dentística Restauradora pela UERJ. O professor Hirata (se puder ser classificado) representa a nova geração de professores/pesquisadores no Brasil com características arrojadas e cientificamente embasado, traz em suas idéias o conceito do aprendizado constante e progressivo. Nesta entrevista, concedida à Revista Dental Press de Estética, discute com sua sensibilidade característica o momento atual do ensino e clínica da Odontologia.

Como você tem visto a Dentística Restauradora nos
últimos tempos?

A Dentística no Brasil tem tido uma dupla influência: uma americana e uma européia. A influência americana tem nos trazido uma maior dinamização dos procedimentos restauradores e, em consultório, reflete em maior produtividade com um índice de erros potencialmente menor também. O problema maior se encontra na tendência à padronização dos resultados e excesso de normatização dos passos operatórios.
A influência européia se faz no esmero pelos detalhes e individualização dos casos e um contato pessoal maior entre o profissional e paciente. Parece-me um padrão mais próximo ao nosso, uma Odontologia menos seriada.


Os cursos atualmente têm mostrado um nível bastante alto, especialmente na área de Odontologia Estética. O número de eventos tem sido igualmente intenso. Como você tem acompanhado esta fase?
Acredito que os cursos na área de Odontologia Estética realmente têm apresentado alta qualidade audiovisual e técnica, o que é excepcional. Penso, no entanto, que estamos todos exagerando um pouco nesta fase.
Estamos evoluindo e isto é positivo, porém, o detalhamento e a atenção aos recursos não deveria ser tão neurótico como tem me parecido. Estamos um pouco “over” em apresentações, pois a tecnologia tem feito este mal ao palestrantes; fomos escravizados pelos projetores multimídia e computadores e esquecemos que o foco é o profissional que está assistindo ao curso. O foco não é a nossa pessoa, mas sim a dele. Este é um erro que também tenho cometido,
mas devo refletir mais sobre este erro pessoal.
O foco deve ser oferecer e passar informação de qualidade e o profissional que assiste o curso deve absorver isto e não se marginalizar frente a esta avalanche de efeitos e informações. E as pessoas gostam das pessoas, ainda!
Me preocupo se, daqui a alguns anos, terei que dar cursos tocando violino, apresentando em 3D e cantando ao mesmo tempo.

“Me sentiria frustrado se dissesse: uso uma técnica há 25 anos com os mesmos materiais, como estou satisfeito.”

Mas a evolução das apresentações teve aspectos muito positivos.
Sim, mas estamos às vezes discutindo, em cursos, temas que os profissionais estão completamente desconectados. Eles, muitas vezes, não têm a mínima noção do que estamos apontando e o erro não é somente deles por falta de estudo, mas também nosso por não contemporizar as informações. O que é, por exemplo, iridescência (veja glossário) para 98% dos profissionais que fazem Dentística.
Para nós, que estamos acompanhando o enfoque das discussões sobre óptica dos materiais, alguns conceitos são “estratosféricos”, imagine para um profissional saindo de seu consultório para ir a um congresso a fim de evoluir em procedimentos técnicos e atualizar-se, entrar em uma discussão sobre o “efeito da camada de alta reflexão de luz na vitalidade de restaurações” e não saber, ainda, o que é opacidade e translucidez.
Não estou me excluindo desta discussão; também erro em minhas apresentações, mas penso muito nisso. Precisamos ser mais simples; a Odontologia precisa ser mais simples. Precisamos passar a informação. A maioria precisa absorver a informação.


E sobre a ansiedade dos profissionais frente à mudança
e às novidades?

Todos sofremos com as mudanças, mas elas são inevitáveis. Algumas pessoas me dizem: “tenho uma técnica e uso um material para isto e estou satisfeito, gostaria de fazer isto assim para sempre”. Mas nunca nada é para sempre, tudo sempre muda. Me sentiria frustrado se dissesse: uso uma técnica há 25 anos com os mesmos materiais, como estou satisfeito...
Frustrante e angustiante é não querer e não aceitar mudanças.
Algumas pessoas olham para a vida e dizem: gostaria que fosse sempre assim, estou satisfeito. Mas não será e você terá momentos bem piores e também melhores. Simplesmente assim. Acho, inclusive, que devemos estar preparados não para o sucesso, mas para os dias de fracasso, pois com certeza os teremos.


Mas mudanças incluem uma fase de erros iniciais, durante a aprendizagem.
Tudo bem, como tudo na vida, existe esta curva de aprendizagem, mas se tenho medo destes erros e os evito não modifico nunca o que faço. Continuo fazendo as mesmas próteses moldadas da mesma forma e fazendo as mesmas restaurações tradicionais.
Queremos evoluir e avançar, mesmo que tenhamos que pagar com erros iniciais. A evolução é como uma espiral em que você tem a impressão que desce um pouco, mas logo após sobe mais.
Existe uma frase de Karl Popper que diz: “o ideal de não ter erros é um ideal pobre; se não temos a ousadia de abordar problemas difíceis em que o erro seja quase inevitável, o conhecimento não aumentará”.


Errando se aprende?
Não, às vezes não se aprende nada com o erro.
Alguns profissionais erram e voltam para casa e dormem normalmente e pensam: errei, mas aprendi. Se você não sente a dor do erro, perde o sono e sofre com isto, não está aprendendo nada, não está absorvendo o erro. O erro deve ser sentido como dor.


Os profissionais têm se tornados mais críticos em geral e, especialmente, nos cursos. Como você tem sentido este lado?
Obviamente fico um pouco angustiado. Todos querem agradar sempre, mas penso que se torna pouco saudável. Uma vez entrei em um curso e ouvi no fundo da sala algo como: “ouvi dizer que ele é muito bom, vamos ver se é mesmo!”. Fiquei pensando que gostaria de corresponder à expectativa e pensei em todas as vezes que decepcionei aos
outros e a mim mesmo; decidi ser como sou sempre,às vezes melhor e às vezes pior, algumas vezes agradando e outras não, mas ser eu mesmo. Percebi que esta cobrança perante os outros tirava o prazer de dar cursos.
Na minha época de faculdade os cursos bons eram aqueles em que olhávamos para o professor e pensávamos: “O curso foi ótimo, mas nunca vou conseguir fazer isto; não entendi muito bem, mas este cara é fantástico”; não absorvíamos nada e, ainda assim, eles eram fantásticos. Hoje a comunicação se faz de outra forma; bons cursos são aqueles em que aprendemos pequenos detalhes; anotamos alguns materiais interessantes e acrescentamos algo pessoal.
As pessoas têm cobrado dos palestrantes cursos fantásticos e performances pessoais, técnicas avançadas e fotos excepcionais, mas no fundo ninguém resolve o ponto principal. Não são os palestrantes que devem ser excepcionais e sim nós que estamos no curso. Devemos buscar um novo detalhe, uma nova idéia, mas cobramos dos outros o que não temos coragem de cobrar de nós mesmos. Jogamos a ansiedade do momento em que vivemos e das mudanças que nos são exigidas nos professores e palestrantes, mas ninguém tem culpa.
Ora, todos somos inseguros, todos queremos agradar, mas devemos aproveitar as pessoas e os palestrantes como eles são e não como gostaríamos que fossem. “Acho que ele deveria fotografar melhor...” Não pense que eu também não gostaria de fotografar melhor, mas calma. Podemos viver com mais serenidade com os outros.

Figura 1 - Caso inicial de uma restauração Classe IV que havia realizado com dois anos de acompanhamento. O paciente solicitou uma mudança para cerâmica, desde que sem desgaste dentário, por pequenas fraturas eventuais que ocorriam com a resina.
Figura 2 - Dente após a remoção da restauração.
Figura 3 - Fragmento realizado em IPS design (TPD. Murilo Calgaro).
Figura 4 - Fragmento cimentado; Dentística ou Prótese?

Você se acha um profissional diferenciado, até pela
idade que tem.

Engraçado que nunca fui bom em nada do que fiz até me iniciar em restaurações de amálgama; realmente ia bem em amálgama. Mas não era excepcional em nada específico.
Conheci amigos que trabalham muito melhor que eu, outros que fotografam melhor, outros que falam melhor, outros que escrevem mais e melhor, mas acredito em ser extremamente pessoal inclusive nos defeitos. Ainda acho que as pessoas gostam mais da gente pelos defeitos do que pelas qualidades. Desisti de ser excepcional para ser isto, uma pessoa cheia de defeitos e pontos fracos a serem trabalhados e algumas habilidades, mas todas bastante pessoais e verdadeiras. Se pudesse ser excepcional gostaria de ser, mas desisti.

A Dentística e a Prótese têm se aproximado bastante.
Qual seu ponto de vista sobre isto?

Penso que a Prótese e a Dentística são uma só área: Odontologia Restauradora. Impossível diferenciar hoje a Dentística da Prótese, uma vez que os procedimentos indiretos fazem parte de 50% do consultório de clínica restauradora hoje. Antigamente havia a idéia de algumas pessoas sobre talvez fazer Dentística porque não gostavam de moldagem, mas hoje se mostra impossível dissociá-los. No futuro poderão ser uma só especialidade: Odontologia Estética Restauradora.

Temos grandes referências de profissionais hoje.
Muitos deles devem ter sido fontes de inspiração.
Com certeza tive estes professores de hoje não como ídolos porque não é saudável ter ídolos, mas profissionais impactantes que inspiram, independente de qualquer questão filosófica ou política; daqueles que tinha uma visão na faculdade posso afirmar algumas coisas. A primeira vez que vi o Prof. Mondelli foi um grande impacto, pois possui uma personalidade e carisma, isto é inegável. O Prof. Baratieri devo dizer que foi uma mudança de paradigma, idéias e atitude conjuntas; até hoje tenho a reação de um recém-formado nos cursos dele, fico impressionado.
Do ponto de vista individual, tenho a satisfação de ter o Prof. Mario de Góes no convívio profissional, uma vez que tenho aprendido muito com ele, assim
como com o Prof. Paulo Kano, um verdadeiro sábio, cujo primeiro curso fiz com 22 anos. Existem muitos outros que tive o prazer de conhecer mais tarde, mas estes, especialmente, tinha apenas imagens projetadas antes de me formar. Provável que eu nunca tenha dito isto a eles, mas esta é uma forma de reconhecimento por minha parte.


GLOSSÁRIO (segundo Dicionário Houaiss)
Iridescência: (substantivo feminino) característica, condição do que é iridescente; série de reflexos brilhantes, perceptíveis no arco-íris, na madrepérola, em bolhas de sabão.
Opacidade: (substantivo feminino) qualidade, estado ou propriedade do que é opaco; ausência de transparência.
Translúcido: (adjetivo) diz-se de qualquer corpo que deixa passar a luz, mas que não permite que se perceba objetos colocados por detrás dele.

Dr. Ronaldo Hirata
- Professor do curso de Especialização em Dentística Restauradora UFPR;
- Professor do curso de Pós-graduação Latu Sensu em Odontologia Estética CES/SENAC-SP;
- Professor do curso Estética em Prótese Fixa APCD-SP;
- Especialista em Dentística Restauradora UFPR;
- Mestre em Materiais Dentários PUC-RS;
- Doutorando em Dentística Restauradora UERJ;
- Coordenador do curso de Resinas Compostas NAEO-SC e Instituto Neodent-PR.