Cassius Torres Pereira

Aluno do Programa de Doutorado em Estomatologia Clínica da PUC/RS
Especialista em Periodontia pela USP/Bauru
Ex-Professor de Semiologia Aplicada, Clínica Integrada e Disciplina Optativa de Periodontia da UFPR (96/99)
Consultor Científico Adjunto do Jornal Brasileiro de Clínica e Estética em Odontologia
Fundador e Mantenedor do EDONTO: Educação, Mercado de Trabalho e Legislação em Odontologia
Curitiba - Paraná

Provocações e reflexões sobre o ensino odontológico

Amigos,
Proponho um debate que vai evoluir com contornos cada vez mais delicados até o momento em que precisaremos de especialistas para suas sutilezas, mas me instiga saber como poderíamos montar um currículo odontológico, hoje, baseado na epidemiologia.
Não estou questionando se isso é possível ou não. Acredito que é perfeitamente factível. O que me interessa é saber por onde começar e que experiências brasileiras temos bem sucedidas neste aspecto de reforma curricular. Como Maringá e a Unicamp, por exemplo, com seus arrojados projetos curriculares estão dando conta deste desafio?
Como não deixar que uma reforma curricular seja um mero reelenco de disciplinas e horários?
Em face do declínio da cárie e de um conhecimento mais detalhado da doença periodontal, através de conceitos como o da especificidade da placa bacteriana, ou de susceptibilidade do hospedeiro, como fica a mudança de paradigma?
O que fazer agora neste hiato em que temos uma geração perdida (como cita o meu amigo Christian Mendez Alcântara) com demandas curativas muitas vezes excluídas de programas de atenção pública, e uma nova geração de indivíduos com perfil epidemiológico e demandas distintas?
Como adaptar estes novos e importantes conhecimentos dentro da escola odontológica e do serviço público?
Será que teremos que estudar cada especialidade caso a caso?
Será por exemplo que a ortodontia terá espaço dentro da saúde pública?
Ou seguirá protegida por seus cânones de papel e palha?

Insisto nestas provocações e reflexões:
Esqueçamos por um momento todo o papo da visão holística (muito bem lembrado por Natan Gutermann, do clichê em que se transformou este belo termo...) e nos concentremos no ensino da técnica tradicional: raspagem, preparos, cirurgia periodontal, implantes, orto, cirurgia oral "menor" e por aí vai...
Mesmo neste tipo de ensino que é aceitadamente o enfoque, voltado à clínica particular, reitero que mesmo aqui, o ensino é lamentável. O Journal of Dental Education e o European Journal of Dental Education volta e meia trazem enquetes e levantamentos com alunos de graduação mostrando insatisfações com certas disciplinas, de forma semelhante à que encontramos no discurso dos nossos alunos atualmente, e quiçá, nosso discurso enquanto éramos alunos. Ou seja, além de toda limitação em formação abrangente, que privilegie e prepare para uma gama de possibilidades profissionais e de prática cidadã, temos também o desafio de repensar o ensino técnico. Pra mim, ele é fonte de excessivas e evitáveis frustrações, onde o "dentista que dá aula" toma o lugar do professor de odontologia.
E estou longe de querer reduzir a questão a professores que tem mestrado contra os que tem "só" especialização. Estou cansado de ver exemplos de professores com mestrado e doutorado inferiores em didática e planejamento educacional aos professores com especialização ou sem especialização e vice-versa. O primeiro ponto no meu entender é tirar a discussão deste patamar, que nos renderá belas distorções.

Um exemplo "prático" do modelo estanque que conduzimos: a estandartização de algumas especialidades ou disciplinas.
No exemplo da periodontia brasileira em geral, seja graduação ou especialização, me parece inconcebível que não existam diálogos com as áreas de cirurgia menor (terceiros molares, pequenos cistos, apicectomias) e da estomatologia (biópsias). Ou das pequenas movimentações ortodônticas para citar um pequeno exemplo de um universo vastíssimo de incompreensões e falta de planejamento curricular.
A forma como a periodontia brasileira acompanhou durante anos a odontologia restauradora de forma geral foi de uma estreiteza de visão e de uma preguiça sem tamanho. Eu acredito como alguns colegas de EDONTO (Natan, Conce , Pucca e Petrônio, esqueci alguém?) http://meusite.osite.com.br/edonto que "forças ocultas" do modelo, impõem e alimentam certos vícios, forçando a manutenção de um sistema que lhes interessa. Mas o que mais me chama a atenção é que acredito mais na força inercial destas escolhas que mantém o status quo.

Essa mania de achar que é assim mesmo e vamos fazer igual... Essa repetição acrítica e covarde de modelos que colocados em análise expõem toda sua incoerência e inconsistência. Quer exemplo pior do que achar que formação técnica é o suficiente para dar aulas? Poderíamos enumerar nos dedos de uma mão apenas, as iniciativas brasileiras criativas e novas do ensinar odontológico.
O porquê desta repetição, desse conformismo, dessa falta de ousadia e desprendimento talvez esteja respondido pela colega Sylvia Tristão quando fala do comprometimento ético, da noção de vida em sociedade, e da superação deste individualismo que marcam o modelo econômico e cultural brasileiro de uma forma ainda maior e mais evidente do que nos países que os deram origem.
Em suma, precisamos superar o conceito de que "resolvido meu problema, que os outros resolvam os seus".
O primeiro passo é reconhecer que os problemas "dos outros" são nossos também...e arcar com todas as difíceis decisões que virão na esteira desta escolha. Teremos coragem? E se a tivermos, quanto tempo resistiremos defendendo nossos princípios sem nos curvar aos apelos da sociedade individual de consumo?

 

Ricardo Massaki

Especialista em Periodontia UNESP-Araraquara e Dent. Rest. ABO-PG
Prof. do Curso de Especialização em Dent. Rest. UFPR
Prof. do Curso de Aperfeiçoamento em Odontologia Estética ABO-PR

Temos motivos de sobra para ficarmos "boquiabertos"

Vejo com espanto e ao mesmo tempo com uma certa tristeza, jovens dentistas a procura de maiores informações com jovens palestrantes sabedor dessas informações. Indago com certeza, se é este o rumo verdadeiro para a evolução em nossa profissão.

Duas coisas normalmente acontecem após a brilhante ou não palestra do dito palestrante. Primeiro, ficamos admirados com o que não sabemos ao primeiro instante e logo em seguida ficamos apavorados, pois achamos que não sabemos nada (o que é bom). Esse(palestrante), fica para nós, meros seres terrestres, um ser divino, supremo, inatingível, um Deus(não qualquer).

Outra situação é totalmente o oposto, isto é, não ficamos admirados, nem ao menos "assustados", ficamos isso sim é com uma certa raiva. O comentário, normalmente, é mais ou menos assim: "desse jeito?. Eu faço muito melhor". Nem de longe parece aquele ser divino, com certeza é um ser normal, tanto que somos melhores do que ele.

Aonde é que queremos chegar,se é que queremos? Primeiro, não existe nada de tão diferente para se ficar apavorado. E tem mais, se "existe", porque preciso necessariamente ser o primeiro a ter essa informação? O mundo está tão competitivo assim, ou você é que está? E mais tem ainda. Com calma,explicarei.

O caso do palestrante que não impressionou. Virou moda agora, palestrante, dentista, médico, psicólogo, enfim, todos que são bem sucedidos, virarem referências. Porquê,será? Ora, convenhamos! Isso vem de algum lugar. Quer auto-ajuda? Se queres,estás procurando em lugar errado. Os verdadeiros mestres não são idolatrados como muitos pensam. Passam a sua sapiência aos seus futuros discípulos de um modo sereno, tranqüilo. Nada de ficarem apavorados. Tanto plantam, que colhem frutos(discípulos) para formarem gerações brilhantes, que não se ofuscam, nem se intimidam com os percalços que existem e existirão pelos nossos caminhos e que serão com certeza, superados.

Sabermos discernir entre o caminho de atalhos e o caminho sem atalhos faz de nós, seres humanos, melhores e iguais. Buscar os nossos ideais na essência, nos fará melhores e insuperáveis.